EDUCORAÇÃO

Acabo de ler da PAPIRUS e 7 Mares, o livro SOBRE A ESPERANÇA – diálogo entre Frei Betto e Mário Sérgio Cortella. Estive presente também, com enorme euforia, às palestras de Leonardo Boff e Frei Betto ministradas em Juazeiro e Barbalha, respectivamente.  À luz da  indignação, da inquietude e da esperança, volto às letras para compartilhar o que as batidas do meu coração fazem soar neste momento.

Como anda a nossa educação? Muitos administradores defendem que estão fazendo o melhor quando otimizam as instalações físicas, quando estão pagando aos servidores em dia, dentro do mês. Mas para quem ensina, o piso nacional ainda é injusto para vermos dignidade em nossa classe docente. E a luta deve continuar com o brio que só os heróis têm. Mas também sabemos que a escola só cumprirá o seu papel de formar cidadãos agentes de transformação da sociedade, portanto com senso crítico, sensibilidade e intelectualidade, quando escrevermos e colocarmos em prática uma nova proposta pedagógica, mais holística, mais abrangente, que possa trabalhar também os mistérios do coração, da intuição e da emoção.                   

Além  disso, não vamos acabar bem se mantivermos o foco apenas na preparação de mão de obra “qualificada”, numa verdadeira despersonalização do ser humano. Afinal, como podemos considerar com qualidade, a mão de obra que se sente instigada ao materialismo exacerbado? A melhor escola não pode ser a que tem mais alunos vitoriosos nos vestibulares. Mas a que prepara também para viver em comunidade e não em agrupamentos, como pessoas extremamente individualistas. Quem não já foi vítima, por exemplo, de um médico insensível, materialista, arrogante? Profissionais tão merecidamente valorizados, mas que não tiveram no ensino regular nem na graduação, como as demais áreas,  experiências fabulosas e necessárias  de afeto, amor, respeito, bom senso... E agora, o que podem ensinar  aos seus filhos? É claro que a responsabilidade de educar é dos pais, é da família. Mas a escola precisa ser parceira e abrir portas para a discussão dessas prioridades. Cortella nos lembra: A tragédia não é quando um homem morre; a tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo”. Não podemos permitir, pois,  que o homem se materialize ao ponto de perder o que o diferencia dos irracionais: a capacidade de pensar e amar.

Tenho esperanças que dia menos dia, haveremos de elaborar uma nova história para a nossa educação. Quiçá,   comece com a luta por um salário digno, justo e que não force o docente a ter que trabalhar três expedientes e ser considerado apenas um vocacionado sofrido. Reconheço que não é fácil, pois nossos paradigmas passam longe de um Che Guevara ou de uma  Tereza de Ávila. Mas creio no potencial dos que leem, daqueles que estão indignados e querem, como Jesus, pescar homens para uma proposta nova de sociedade.

Aos que estão no poder, com a possibilidade de contribuir efetivamente para darmos alguns passos à frente,  sugiro em síntese: encontros sistemáticos de formação pedagógica e de acordo com a situação diagnóstica de cada escola; salários dignos aos professores e funcionários; acompanhamento pedagógico constante às escolas pelas secretarias; prioridade ao ensino da leitura e da escrita; eleição para gestores escolares; inclusão digital geral; atendimento humanizado para todas as comunidades escolares; preparação docente para uma educação realmente inclusiva; aquisição de livros paradidáticos em abundância para as bibliotecas com projetos de incentivo à aprendizagem da leitura; construção de playgrounds e aquisição de jogos pedagógicos; convênios com as universidades; parceria de formação continuada para pais e educadores; aquisição de melhorias estruturais via elaboração de projetos federais  e estaduais...

                 Por fim, trago à tona um fragmento de autoria do Frei Betto, exclusivamente para todos nós, que lidamos com a educação e precisamos refletir sobre nossa prática pedagógica diária. Assim ele se expressa: “Os educadores deveriam ter sempre a preocupação de contextualizar, de mostrar a ligação das partes com o todo, do aluno com a comunidade. A educação deve formar um triângulo: texto, contexto e pretexto. Quanto mais o tema (que é o texto) é contextualizado, mais extraímos para nossas vidas as razões pelas quais aquele tema nos interessa (o pretexto). Assim, acredito que o nosso processo de humanização passa pela percepção das conexões, mas essas conexões, que garantem a minha existência, só vão se aprimorar e perdurar se houver um projeto que se assente sobre a esperança da humanização.” Façamo-lo.

Aldo Luna – 7/9/2011