OLHAR DE APRENDIZ

OLHAR DE APRENDIZ

O dia dos pais está aí. Com ele, a alegria de celebrar a vida de quem optou pela nossa existência. Todos temos, pois, o direito de festejar, cada um à sua maneira, tão significativa data.

Este, porém, é o primeiro dia dos pais em que  o  meu, embora presente, não vai entender o significado do meu beijo e do meu abraço de gratidão.  Acometido do mal de Alzheimer, já não se comunica, já nem sabe quem sou.

Para os que o conhecem  é possível, mesmo que de longe, dimensionar a “perda” de tão expressiva personalidade. Para nós, filhos, esposa, netos, sobrinhos, genros e noras, que convivemos  anos a fio com o seu bom humor  constante, com seu gosto musical refinado, com seu prazer pela leitura e escrita, com sua dignidade e rica espiritualidade, com suas declamações, com sua educação, responsabilidade e amor, não é fácil suportar a falta de tão valiosa riqueza. Sim, pois esta sua marca, a sua única herança, tem simbologia incomensurável em nossa vida, insubstituível  por qualquer outra de nível  material.

Com a rapidez do agravamento de sua doença, muitos tendem a maldizer demasiadamente tal estado do meu pai. È pertinente lembrar, todavia,  que “sofrimento é fruto do processo que nos torna humanos. Enxergar o que nos acontece com outras lentes, já que sofrimentos  não podem ser estados definitivos. Devem, sim, ser pontes, locais de travessia.” Precisamos reagir. O momento é de ação-reflexão, é de perguntar, não de responder. Valorizar o que um dia disse Willian James, psicólogo e filósofo  americano: “A maior descoberta de  minha geração  é que os seres humanos  podem alterar sua vida alterando suas atitudes”. Não nos deixemos abater.

Imagino o crescente número de pacientes com Alzheimer em nossa região e os milhares que virão em todo mundo nos próximos anos, segundo perspectivas científicas. Como é uma doença ainda muito nova e degenerativa, vislumbro uma perplexidade, um sofrimento coletivo muito intenso. Isso porque ela envolve todos os familiares e modifica, forçosamente, o ritmo da melodia de vida de qualquer residência. Fazer o quê, então?

Convivo com a doença do meu pai  por pouco menos de sete meses. Não sou especialista em nenhuma área de saúde. Apenas um filho,  um cuidador, um operário da felicidade. Alguém que luta com todas as garras para dar um mínimo de qualidade de vida para um pai num estado avançado da doença. A minha intenção, na verdade, é tentar amortecer a dor  daqueles que convivem com qualquer nível de sofrimento, advindo ou não de uma enfermidade.  Então,  trago à tona, pequenas, mas  grandes mensagens selecionadas do último livro que li, escrito por Pe. Fábio de Melo, Quando o sofrimento bate à sua porta, deixe-o entrar. Aprendamos com ele a fazer melhores escolhas... Assim ele se expressa:

·  Sofrer é o mesmo que purificar.

·  Não há nada nessa vida, por mais trágico que possa nos parecer, que não esteja   prenhe de motivos e ensinamentos que nos tornarão melhores. Tudo depende da lente que usamos para enxergar o que nos acontece.

·  Tudo o que é vivo um dia morrerá.

·  Acolha o Cristal que há em você.  Alegre-se por ser frágil. Quem sabe assim você se abra a bonitas experiências de cuidados.

·  Perder, nós perderemos sempre, mas as perdas são tão necessárias quanto os ganhos. É só olhar diferente para elas.

·  Não posso mudar o fato, então decido permitir que ela me modifique.

·  Muitos sofrimentos são causados na nossa vida porque não sabemos perder, não sabemos atravessar a ponte, não sabemos mudar de estação. Mas diante de tudo o que não podemos mudar, há sempre o que  podemos aprender e compreender.

·  Ninguém    muda de atitude sem a experiência  do esforço.

·  Quanto mais uma pessoa é capaz de pensar a vida, suas escolhas e o jeito de encaminhar suas decisões, maior será a possibilidade de uma experiência harmônica e equilibrada de si mesma e dos  outros.

·  O primeiro desafio que temos diante de uma dor  que acabou de chegar é continuarmos no comando da vida.

·  Estender no tempo o estágio do desespero é adiar a solução  dos problemas. Pessoas desesperadas  não costumam lidar bem com os problemas que enfrentam. A razão é simples. O desespero é o oposto da análise. A análise requer calma, paciência e lucidez.

·  Assim que racionalizo o medo, naturalmente ele perde o poder  sobre mim.

·  Não faça da curva o final da estrada.

·  O sofrimento humano é natural, é inevitável. Em algum momento da vida, ele nos esbarrará. O importante  é não nos  rendermos ao seu possível espírito destruidor.  Para isso, é preciso manter viva a chama da esperança.

Por fim, gostaria de felicitar aos pais  pela passagem do seu dia.  Pedir aos filhos cujos pais estejam com saúde plena, que os abrace, os beije, e curtam profundamente essa alegria simultânea e esgotável. Além disso, lembrar a todos  que a vida que não é examinada  não vale a pena ser vivida, como Sócrates nos lembra. Portanto, enfrentemos nossas dores sempre com um olhar de aprendiz  e  nada será como antes.

                                                                    Francisco Aldo  Luna Gomes

       30 de julho de 2009